“Dói. Arde. Queima. Lateja. Anestesia. Transborda. Sufoca. Te faz definhar. Muda você. Mas passa.”
— Outunos.
“Dói. Arde. Queima. Lateja. Anestesia. Transborda. Sufoca. Te faz definhar. Muda você. Mas passa.”
— Outunos.
Tem dias que prefiro me silenciar. Sentir o vento passar.
Não sou mulher de rosas. Já disse de saída, no primeiro encontro, nem recordo a razão. Mas disse, naquele meu velho estilo metralhador de moços com olhos de promessa. Sei que disse, com meus reflexos ariscos de cão sem dono sempre buscando receosa a moeda de troca para qualquer elogio, a vigésima quarta intenção por trás de um rosto abandonado. Eu não queria ser mais uma na sua cama, por isso disse não gostar de rosas, tampouco das vermelhas, pra me afastar da obviedade do amor. Não sabia como, mas queria que você me notasse diferente de todas as outras.
Não deixe eu me arrepender de um dia ter te amado. Não deixe eu escapar assim. Me prende nos seus braços, cola do meu lado, tranca um cadeado, ponha alarme em mim. Não deixa eu chorar no quarto pensando em você, não deixe o tempo apagar, eu posso te esquecer. Me liga toda hora, vigia a minha porta, cuida do meu coração. Resolve os meus problemas, me leva pro cinema. Me leva no seu bolso, me faz de travesseiro, me pendura em seu pescoço feito um amuleto. Você me tem nas mãos, mas não aperta, que eu escapo entre os seus dedos.
Às vezes é necessário desistir. Não há vergonha alguma nisso. Vergonhoso é insistir no não desejo do outro. Ou no que não se vai dar em nada.
Que clichê horroroso. Não existe isso de momento. Um momento só é um momento digno de nota quando referenciado em todos os instantes significativos que sucederam antes de chegar a sua hora. E também há os momentos subsequentes. Ou seja, é ilusão achar que esse troço gostoso que poderia estar acontecendo entre nós lá em cima, agora às 23:37, seria apenas fruto isolado do agora e não um ato cheio de respostas e promessas. Eu não quero mais viver momentos, coisas sem significados. Não quero esquecer o passado e nem descartar o futuro. Ando sofrendo de agorafobia. Me deixa ir pra casa, por favor.
Posso fazer um pedido?
Nos finais de tardes bonitos, lembra de mim.
Arranca minha roupa aqui, agora, na rua, no chão, no quarto, mas tira. Arranca de mim esta agonia, a preguiça, a desesperança de não encontrar o inteiro, o certo, o que espero. Tira de mim o medo de ter que me contentar com o que não me contenta, não me toca, não suspira, não geme, não lê, não grita, não liga. Arranca com vontade o que não é meu, o que não pode ser meu, o que jamais será. Vai! Deixa-me nua, livre, desamarrada, de pé no chão e cabelo solto para o vento, para a vida, para sorrisos, para um amor que me ame também. Tira. Fica. Vem. Aparece. Sugere. Volta que te faço café, e ainda pinto nosso beijo no meu espelho.
